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domingo, 15 de março de 2009

Paris é uma festa movel

Ernest Hemingway

Paris é uma festa cobre o período que o escritor norte-americano Ernest Hemingway passou em Paris, na companhia da chamada “geração perdida” da literatura – Francis Scott Fitzgerald, de O grande Gatsby; Gertrude Stein, escritora e poeta; Ezra Pound, poeta de Os cantos, e outros artistas que, entre um café e outro, batiam um papo animado com Picasso e James “Ulisses” Joyce pelas rues da cidade das luzes.
O livro só foi concluído em 1960, um ano antes de Hemingway meter uma bala na cabeça. Com apenas um tiro de fuzil de caça, tornou-se sua própria presa.
A escrita desse Paris é uma festa poderia servir para a criação de um descompromissado Manual de Redação do Velho Hem. Do mesmo jeito que ele conta que Paris nunca se desligou dele e o acompanhou por toda a vida (“Paris não tem fim (...) Mais cedo ou mais tarde, não importa quem sejamos, não importa como o façamos, não importa que mudanças se tenham operado em nós ou na cidade, a ela acabamos regressando”), o jornalismo também permaneceu em sua corrente sanguínea, como um veneno.
Ele acabara de renunciar ao jornalismo, mas a linguagem concisa, áspera e avessa a adjetivos constituiria uma grande marca de sua obra.Um grande exemplo da influência da atividade jornalística no texto de Hem (apelido íntimo usado por seus amigos parisienses) são os títulos dos capítulos desse livro:
“Miss Stein instrui” segue passo a passo a tradição da construção sujeito-verbo-predicado. “O nascimento de uma nova escola” poderia muito bem ser um artigo sobre uma vanguarda artística do séc. XXI. “O homem que estava marcado para morrer” parece mais a chamada de um perfil sobre algum condenado à morte, mas foi perdoado. Algumas passagens lembram impressões de viagem.
Como se virar numa metrópole famosa por seus talentos gastronômicos e sua cultura literária sem um centavo no bolso?

Hemingway ensina o valor da fome na criação artística e a arte de se emprestar livros em vez de comprá-los.
Apesar da recomendação de Hemingway no prefácio – “Se o leitor preferir, considere este volume como um trabalho de ficção” –, o escritor de Adeus às armas e Por quem os sinos dobram observa os fatos com a distância crítica necessária a um repórter.
A imparcialidade é tanta que o leitor tem a impressão de que ele nunca conseguiu se divertir de fato em Paris, e nem em nenhum outro lugar.
Ele jamais se integra, jamais se mistura, duvida de tudo e de todos, e acabamos torcendo para que o narrador consiga finalmente mergulhar de cabeça no que acontece a seu redor. Hemingway não se encaixa. É cético até o osso.
Quem se emociona com a fragilidade do homem de O velho e o mar fica de queixo caído quando lê que “a única coisa capaz de nos estragar um dia eram pessoas”.
O egocentrismo do escritor norte-americano é ainda mais ressaltado quando colocado ao lado da figura generosa e altruísta de Ezra Pound, grande amigo de Hemingway. Pound fazia “vaquinha” para tirar da miséria todo e qualquer artista de seu círculo, mesmo que não visse nenhuma qualidade em sua produção intelectual.
O benfeitor Pound e o mesquinho Hemingway viviam lado a lado.Apontamentos sobre literatura, sempre amargos e extremamente comedidos – “bom” e um raro “excelente” eram os únicos elogios de sua parca lista de adjetivos – acerca de Dostoievski (“um dia acabarei descobrindo tudo o que ele quis dizer”), Aldous Huxley (“é uma droga empolada, escrita por um morto”) e D. H. Lawrence (“Lawrence é patético e absurdo. Escreve como se fosse um doente”) aparecem todo tempo ao longo dos bate-papos em Paris.
É tolerável a crítica ferrenha aos “antigos” escritores, já que o ego da génération perdue era do tamanho de um zepelim; era preciso destruir para reconstruir os rumos da literatura.
Tanto ego assim não se garante quando Hem detalha corridas de cavalo, campeonatos de ciclismo, lutas de boxe, touradas e a intoxicante atração que sentia pelo esqui.
Tudo parece perder o sentido. Por isso, o creme do livro são suas relações com algumas das figuras mais contraditórias da história da literatura.Três capítulos são dedicados ao convívio com Francis Scott Fitzgerald e sua conturbada vida a dois com a mulher Zelda.
A montanha-russa emocional em que viviam, ladeada por ciúmes, doença, inveja do sucesso profissional de Scott, loucura, auto-destruição e dependência do álcool apenas fazia Hemingway bocejar.
Entediava-o profundamente o comportamento mimado e carente de Fitzgerald, que, uma vez, em pânico por estar quase pegando uma gripe, caiu em depressão num hotel e encolheu-se de tal maneira na cama que remetia à imagem de um garoto amuado chupando o dedo e implorando pela mãe.
Já em outros momentos, Fitzgerald conseguia ser genial.Interessantes eram também as paradas obrigatórias na Rue de Fleurus, 27, casa de Gertrude Stein, poeta e feminista, que muito ensinou a Hemingway, sobre arte, sexualidade e Paris.
O ponto de encontro de Picasso, Matisse, Braque e outros foi alvo de uma paródia muito bem-humorada de Woody Allen (“Os anos 20 eram uma festa”, em Cuca fundida), que traduz o espírito vanguardista e experimental da arte no pós-guerra.O estilo conciso de Hemingway deixa alguma coisa no ar.
Não sabemos se ele aproveitou Paris do jeito que se deve aproveitar Paris.
Se ele assim o fez, não nos conta.
Mas, “se você teve a sorte de viver em Paris, quando jovem, sua presença continuará a acompanhá-lo pelo resto da vida, onde quer que você esteja, porque Paris é uma festa móvel” (de Hemingway a um amigo, 1950).
(Fabio Bonillo)